Os Precursores do Cooperativismo
As primeiras ideias cooperativistas surgiram, sobretudo, na corrente liberal dos socialistas utópicos do século 19 e nas experiências que marcaram a primeira metade do século 20. Generalizava-se, nessa época, grande entusiasmo pela tradição de liberdade e, ao mesmo tempo, o ambiente intelectual dos socialistas estava impregnado de ideal de justiça e fraternidade.
Foi nesse quadro intelectual, somado à realidade constituída pelo sofrimento da classe trabalhadora, que se criou o contexto propício ao aparecimento das cooperativas: nasceram da necessidade e do desejo da classe trabalhadora em superar a miséria pelos seus próprios meios, principalmente pela ajuda mútua.
Estes pensadores surgiram na Inglaterra e na França, países pioneiros do progresso intelectual e do desenvolvimento industrial da Época Moderna. Dentre os socialistas que maiores influências exerceram sobre o ideário cooperativista, destacam-se:
John Bellers (1654-1725) - nasceu na Inglaterra e tentou organizar cooperativas de trabalho para terminar com o lucro e as indústrias inúteis;
Charles Gide (1847-1932) - francês, professor universitário, é conhecido mundialmente por suas obras sobre economia, política e cooperativismo. Fundador da "Escola de Nimes" na França, que muito contribuiu com a produção do conhecimento sobre o cooperativismo mundial.
Robert Owen (1772-1858) - nasceu na Inglaterra e é considerado o pai do cooperativismo. Combateu o lucro e a concorrência por considerá-los os principais responsáveis pelos males e injustiças sociais. Investiu em inúmeras iniciativas de organização dos trabalhadores. Preocupado com as condições de vida do proletariado inglês, fundou escolas para filhos de operários.
Willian King (1786-1858) - também inglês, tornou-se médico famoso e se dedicou ao cooperativismo de consumo. Engajou-se em prol de um sistema cooperativista internacional.
Philippe Buchez (1792-1865) - nasceu na Bélgica, buscou criar um cooperativismo autogestionado, independente do governo ou de ajuda externa. Na França ele tentou organizar "associações operárias de produção", que hoje são chamadas de cooperativas de produção.
Luis Blanc (1812-1882) – francês, foi um grande político que se preocupou com o direito ao trabalho, defendendo a liberdade baseada na educação geral e na formação moral da sociedade.
Charles Fourier (1772-1858) - nasceu na França e foi idealizador das cooperativas integrais de produção, criando comunidades onde os associados tinham tudo em comum. Essas comunidades eram chamadas de “falanstérios”.
Todos esses pensadores contribuíram para a formação de concepções, princípios e políticas de ação das cooperativas modernas, ao defenderem:
a) A ideia de associação e ênfase na união em atividades sociais e econômicas;
b) A cooperação como força de ação emancipadora da classe trabalhadora pela organização e por interesses de trabalho;
c) Esta organização se faz por iniciativa própria, cujo controle e administração devem ser democráticos e autogestionados.
Os Pioneiros de Rochdale: a primeira cooperativa
A história dos operários tecelões da cidade de Rochdale – que ficaram conhecidos como os “Pioneiros de Rochdale" - situada no condado de Lancashire na Inglaterra - tem sido a grande referência para o cooperativismo moderno. A Inglaterra do início do século 19 passava por uma série crise, reflexo da luta entre os tecelões, os antigos condados herdados dos senhores feudais e a era industrial.
Prejudicados pelo novo modelo econômico que substituiu o trabalho artesanal pela produção industrial, os trabalhadores tiveram que enfrentar os problemas básicos da sobrevivência humana: falta de moradia, acesso à educação, saúde e alimentação e o alto índice de desemprego, em virtude da mão-de-obra excedente. Diante dessa situação tão difícil, os trabalhadores passaram a buscar alternativas que pudessem garantir a sobrevivência e o sustento de suas famílias.
Diante dos problemas que já se tornavam angustiantes em toda a Europa, um grupo de operários tecelões ingleses - 27 homens e uma mulher - sob influência dos primeiros intelectuais socialistas, decidem fundar a cooperativa de consumo, denominada "Rochdale Society of Equitable Pioneers”, registrada em 24 de outubro de 1844 na cidade de Rochdale (Inglaterra).
Tradicionalmente reconhecidos como pioneiros, os tecelões cooperados começaram a juntar os primeiros fundos necessários para realizar seu projeto de vida, que previa entre outras coisas:
* Abrir um armazém comunitário para a venda de provisões, roupas etc;
* Comprar e construir casas destinadas aos membros que desejam amparar-se mutuamente para melhorar sua condição doméstica e social;
* Iniciar a manufatura dos produtos que a cooperativa julgar conveniente para o emprego dos que se encontram sem trabalho ou daqueles que sofrerem reduções salariais;
* Para garantir mais segurança e bem-estar, a cooperativa comprará ou alugará terra que será cultivada pelos membros desempregados;
* Organizar as forças de produção, de distribuição, de educação e desenvolver a administração democrática e autogestionária do empreendimento.
Os objetivos e a forma de organização social do trabalho e economia da Cooperativa de Rochdale transformaram-se, posteriormente, em princípios do cooperativismo mundial.
A contribuição do cooperativismo no desenvolvimento nacional
A contribuição do cooperativismo, segundo a Recomendação 127/66 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com sede em Genebra, na Suíça, constata que "nos países em vias de desenvolvimento, estabelecer e expandir cooperativas deveria ser considerado um dos fatores importantes do desenvolvimento econômico, social e cultural”, como meio para:
* Melhorar a situação econômica, social e cultural das pessoas com recursos e possibilidades limitadas, assim como para fomentar seu espírito de iniciativa;
* Incrementar os recursos pessoais e o capital nacional mediante estímulo da poupança e sadia utilização do crédito;
* Contribuir para a economia, através do controle democrático da atividade econômica e de distribuição equitativa dos excedentes;
* Possibilitar emprego mediante ordenada utilização de recursos;
* Melhorar as condições sociais e completar os serviços sociais nos campos da habitação, saúde, educação e comunicação;
* Ajudar a elevar o nível de conhecimento geral e técnico de seus sócios.
Numerosas são as cooperativas que contribuem para trazer soluções aos grandes problemas com que se confrontam os países e as pessoas. Fo pelo valor dessa contribuição que, ao longo dos anos, o cooperativismo transformou-se em alternativa viável, na geração de trabalho e renda à população de muitos países, e vem cumprindo sua função no desenvolvimento dos setores urbano e rural.
E, sem dúvida, a qualidade da contribuição do cooperativismo no desenvolvimento local, regional e nacional depende da capacidade e responsabilidade das pessoas cooperantes, que são a razão de ser da organização cooperativa.
Cooperativas: Panorama Mundial
A cooperação que em todos os lugares responde à necessidade do ser humano é, na verdade, um conceito universal. As cooperativas estão presentes em todos os países e em todos os sistemas econômicos e culturais.
Segundo o relatório do Banco Mundial, "seria difícil encontrar um sistema mais eficaz do que o cooperativo para encorajar e estimular a participação ativa das populações na realização de programas de desenvolvimento.”
Em vários países, as cooperativas apresentam as mais diversas realizações, conforme exemplos citados abaixo:
* No Japão, as cooperativas ocupam um lugar relevante no desenvolvimento das regiões rurais.
* Nos Estados Unidos foram as cooperativas que levaram a energia elétrica ao meio rural no decorrer da última geração.
* Na Romênia, as cooperativas de turismo e viagem são as primeiras do país, pela importância de sua rede e pelo número de estações de férias.
* Na Índia, cerca de metade da produção açucareira vem de cooperativas.
* Na região baixa da Espanha, as cooperativas de Mondragon fazem parte, em escala nacional, dos maiores fabricantes de refrigeradores e de equipamentos eletrodomésticos.
* Na Itália, as cooperativas operárias de diversos setores são reconhecidas como o setor de ação mais eficaz na luta contra o desemprego.
* No Canadá, um habitante em cada três, é membro de uma cooperativa de crédito; e mais de 75% da produção de trigo e outros cereais do país passam pelas mãos de cooperativa de comercialização.
* Nos mercados de distribuição de produtos alimentares da Europa, as cooperativas de consumo estão na frente em vários países: Finlândia e Suíça ocupam os primeiros lugares
* Entre os cinquenta maiores sistemas bancários do mundo, cinco são cooperativos. Neles, destacam-se a França, Alemanha, Holanda, Estados Unidos e Japão.
* Nos países escandinavos, as cooperativas agrícolas têm de longe a maior parte do mercado da maioria dos produtos, às vezes com mais de 90% de participação.
* Na França, Polônia e Filipinas funcionam, com muito sucesso, as cooperativas escolares.
As origens do cooperativismo moderno
As origens históricas do cooperativismo moderno tem como referência a sociedade inglesa do século 19, que vivia o impacto das transformações no mundo do trabalho em decorrência da Revolução Industrial.
O advento da Era das Máquinas modifica profundamente as relações de produção e a consequentemente necessidade de divisão do trabalho. A economia, que desde a Idade Média, era exercida por corporações profissionais, nas quais o artesão exercia sua atividade em casa ou numa dependência anexa, passou por uma mudança radical, em que as corporações perderam seu lugar a favor do sistema capitalista de produção.
No século 19 a mecanização no setor têxtil sofre impulso extraordinário na Inglaterra, com o aparecimento da máquina a vapor aumentando a produção de tecidos em grande escala. Estradas são construídas, surgem as ferrovias e se desenvolvem outros setores, como o metalúrgico. Novas fontes de energia como o petróleo e a eletricidade substituem o carvão.
Com o avanço da industrialização e urbanização, muitas famílias que desenvolviam o trabalho de forma artesanal nas antigas corporações e manufaturas, se viam obrigadas a vender a força de trabalho em troca de salário para sobreviver.
O resplendor do progresso instaurado no século 19 não oculta os graves problemas sociais enfrentados pela classe trabalhadora, com a exploração do trabalho e das condições subumanas de vida. Alguns dos mais graves eram:
* extensas jornadas de trabalho, de dezesseis a dezoito horas;
* condições insalubres de trabalho;
* arregimentação de crianças e mulheres como mão-de-obra mais barata;
* trabalho mal remunerado.
A mecanização da indústria, ao mesmo tempo em que fazia surgir a classe assalariada
promovia o desemprego em massa, consequentemente, a miséria coletiva e os desajustes sociais. A intranquilidade social tornou-se campo fértil para a formação das mais variadas oposições ao liberalismo econômico. Surgiram as primeiras organizações dos trabalhadores (sindicatos, associações de operários, cooperativas de ajuda mútua, comitês de fábrica) desencadeando movimentos de reivindicação e reclamando por uma mudança social, econômica e política.
Estas iniciativas configuravam-se como uma possibilidade de transformação do contexto de deterioração generalizada da classe trabalhadora. Foram as primeiras expressões de denúncia, de autodefesa e de sobrevivência diante da condição social em que viviam. É neste contexto que nasceu o embrião do cooperativismo moderno. Representou, sobretudo, a organização dos trabalhadores para fazer frente às consequências sociais e econômicas do capitalismo do século 19 e com o tempo tornou-se também mais amplo e mais complexo.